Jornalista Émerson Maranhão fala sobre LGBTI+ como pauta do jornalismo

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Émerson Maranhão, jornalista e diretor.

Em entrevista para o jornalista Jefferson Cândido, o jornalista Émerson Maranhão fala sobre a coluna Cena G, publicada por ele de 2005 a 2020 no jornal cearense O Povo.

O espaço, pioneiro no jornalismo do Ceará, teve uma bonita trajetória de afirmação das comunidades LGBTs, de visibilização das militâncias.

A coluna acompanhou importantes conquistas e conseguiu prestígio Brasil afora.

Acompanhe:

Jefferson Cândido – Sobre a coluna Cena G, qual foram os objetivos que te levaram a criar a coluna?

Émerson: Cena G foi criada em 2005 como um espaço editorial específico para abordagem direta de assuntos relativos à homossexualidade. Seu diferencial, já na primeira edição, foi o uso de uma perspectiva inclusiva e não de um olhar externo para o tema. Ou seja, Cena G já nasce como uma coluna escrita por gays para o público gay. Só lembrando que, à época, não se usava a sigla LGBTQI+. Inclusive quando a coluna começou a circular a sigla oficial da militância pela causa ainda era GLBT e GLS era a sigla corrente para sinalizar o mercado destinado a essa parcela de consumidores. Voltando ao objetivo da criação da coluna, a ideia era estabelecer um canal de comunicação, ao nível local, que tanto informasse quanto debatesse questões da homossexualidade, a partir de um olhar “homonormalizador”, digamos assim. Explico, nas páginas da Cena G, a homossexualidade era (e é) tratada sob a perspectiva do ordinário, não do extraordinário comum na imprensa nacional da época.  A homossexualidade é abordada dentro da normalidade, e não como algo fora de padrão. Esta abordagem editorial, inclusive, surpreendeu muito uma parcela considerável dos leitores, inclusive os simpáticos à causa, dado o seu ineditismo.

Jefferson – Porque o jornal disponibilizou esse espaço e como foi o processo?

Émerson: Definitivamente, eram outros os tempos nos primeiros anos da Cena G. Apesar de a maioria dos direitos para pessoas LGBT ainda serem um sonho distante e motivo de luta cotidiana, havia um clima muito maior de respeito e tolerância na sociedade. Tanto que são da mesma época, colunas congêneres em alguns dos maiores jornais do País, como na Folha de S. Paulo (escrita por André Fischer e Vange Leonel) e no O Globo (escrita pelo Ronald Villardo, salvo engano). Apesar de diferentes na forma, às três colunas partiam da mesma premissa e tinham postura editorial similar. Isso tudo para dizer que não houve resistência da direção do jornal à proposta. Aliás, a publicação da coluna só foi possível porque bancada pela direção da casa, que viu na iniciativa uma oportunidade.

Há outro indício forte de que existia uma grande demanda por este tipo de serviço editorial de nicho. A segunda metade da primeira década dos 2000 viu surgir no Brasil um forte mercado editorial de revistas voltadas para o público homossexual. E, assim como era com a Cena G, principalmente o público homossexual masculino. São desta época as revistas Junior e DOM (De Outro Modo), ambas lançadas em 2007, e Aimé, lançada em 2008, e posteriormente a H Magazine (2012)direcionada para “gays maduros”. É necessário ressaltar que estas publicações não tinham conteúdo sexual explícito nem nudez. Eram revistas de circulação nacional, com conteúdo editorial, tanto analítico quanto informativo.

Historicamente, é possível traçar um paralelo entre estes quatro títulos, a coluna e a revista Sui Generis, lançada em 1994, e uma das mais fortes influências na gênese editorial da Cena G e no espírito pretendido desde cedo para a coluna.

Em tempo, e a título de registro, também surge nesta época a Via G, revista de turismo voltada para o público gay. É a única que sobrevive em edição física até hoje.

Jefferson – Ocorreu reações dos leitores no início ou durante sua trajetória com a coluna em uma região com poucos veículos votados ao público LGBTI+?

Émerson: Sim, houve forte reação de leitores conservadores tanto nos primeiros meses da coluna, quanto nos primeiros anos, à medida que ela foi ganhando mais visibilidade. A forte reação à coluna, inclusive, me fez acreditar que ela teria vida muito breve. Imaginei, a princípio, que não vingaria o primeiro ano. Estava errado, como mostram os 14 anos em que ela se mantém de pé. Credito essa longevidade ao respeito jornalístico e a seriedade que guiam a coluna ao longo de sua trajetória. Talvez por sabermos de nossa condição superexposta, os cuidados foram redobrados para não dar a mínima margem aos detratores. Mas é importante frisar que essa seriedade e respeito não implicaram, em nenhum momento, o recuo dos temas em que acreditamos, o abandono da leveza na abordagem e na linguagem, ou a dispensa da demonstração de “pintas” e “closes”. Desde seu nascimento até agora, às vésperas de seu debut, Cena G é gay com muito orgulho! E fora do armário!

Jefferson – Qual a contribuição percebida para o jornalismo com a coluna?

Émerson: Seria muito presunçoso que eu apontasse esta contribuição. O que posso dizer, sem correr o risco da imodéstia é que a coluna mostrou que era possível olhar para a diversidade sexual de igual para igual, e não apenas com o olhar de estranhamento habitual. Ainda que não diretamente, entendo que essa postura termina por ampliar seu raio de atuação e influência, de alguma maneira, abordagens jornalísticas outras.

Jefferson – Porque foi você o escolhido para essa iniciativa?

Émerson: Digamos que foi uma aposta. Tanto minha quanto da direção do jornal, que viu em mim o perfil apropriado para esta missão editorial, que nunca foi fácil, menos ainda em seus primórdios. Parece que acertamos, ambos. Mas sempre foi um risco muito grande, tanto para eles quanto para mim.

Jefferson – Você vê como mudança significativa no jornalismo local o serviço prestado pela Cena G?  Que Feedback recebeu no decorrer desses 15 anos de coluna?

Émerson: Prefiro não responder a esta questão. Que outros apontem os serviços prestados pela Cena G, se existirem.

Autor: Jefferson Cândido (@jeffcoult)

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