Preconceito velado: Quando a família diz que pode ser gay, mas não precisa dar pinta

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Por Igor Thawen

O que acontece quando a família diz que está tudo bem em ser gay, lésbica, bi, pan, queer ou travesti, mas desde que a pessoa não “dê pinta”? Esse é um dilema enfrentado por muitas pessoas LGBTQIA+, onde a aceitação familiar parece condicionada à conformidade com padrões tradicionais de comportamento, fala e aparência. Neste contexto, a análise dos estudos queer sobre performance e gênero lança luz sobre as complexas dinâmicas de preconceito velado que ainda persistem em muitos lares.

Esses padrões impostos pela família refletem a cisheteronormatividade, que, em essência, sugere que está tudo bem ser LGBTQIA+, desde que isso não seja visível. O gay que deseja fazer drag não é aceito, a lésbica que adota uma expressão mais masculina encontra resistência, e a travesti que expressa posicionamento político é desencorajada. A questão não é sobre o que pode ou não pode ser feito; é sobre permitir que as pessoas LGBTQIA+ sejam autênticas e genuínas.

Felizmente, o cenário está mudando, com políticas públicas que garantem os direitos dessa comunidade. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que atos ofensivos contra pessoas LGBTQIA+ podem ser enquadrados como injúria racial, ampliando as proteções legais para essa população. A injúria racial foi igualada ao racismo, tornando-se inafiançável e imprescritível, com penas significativas.

No entanto, os avanços legais contrastam com a realidade brutal de muitas vidas LGBTQIA+ no Brasil. O Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ de 2022 revela que mais de 273 vidas foram perdidas, sendo 58,24% travestis e mulheres transexuais, 35,16% gays, e outras categorias da comunidade também enfrentam perigos. A prevalência destes números, em pleno século XXI, nos mostra que a nossa época ainda marcada pelo medo.

A força para enfrentar esses desafios vem, em parte, dos avanços políticos e da presença de pessoas LGBTQIA+ em cargos estaduais e federais, como Erika Hilton, Daiana Santos, Duda Salabert, Fábio Felix, Dani Monteiro, Bella Gonçalves e o saudoso David Miranda (in memoriam). Há pouco tempo, a representação LGBTQIA+ era escassa nesses espaços.

Dentro desse contexto, as dissidências sexuais e de gênero muitas vezes desafiam o modelo de “família tradicional”. A sociedade estabelece padrões desde o nascimento, fazendo com que as pessoas (inclusive as cisgêneros e ditas heterossexuais) cresçam apanhando de um sistema identidades, que normatiza prescrições de gênero e sexualidade. A exclusão familiar tradicional e a visão retrógrada de corpo, como exclusivamente reprodutivo, são fruto deste processo.

Não podemos deixar de dizer que a influência de um familiar amoroso é inestimável. Por isso, mais do que uma crítica, esse texto é um chamado à ação. Todos os lares deveriam ser refúgios acolhedores, onde as diferenças são celebradas, contribuindo para um ambiente mais harmonioso e enriquecedor. A aceitação e o amor nos lares são essenciais para o bem-estar de todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero – ou da sua performance corporal.

Portanto, o familiar que impõe condições à aceitação, na verdade, demonstra um forte preconceito velado – uma LGBTQIAfobia latente, que se expressa na repulsa da vida queer, que transcende as normas. A verdadeira preocupação não deve ser com a aparência ou comportamento, mas com a felicidade e bem-estar do indivíduo, até porque, esse certo ou errado que nos impuseram são grandes invenções. Quando a diversidade for aceita, quando a norma e o ódio forem reconhecidos como obsoletos, talvez finalmente possamos entender que o corpo do outro não é um reflexo do nosso, mas sim a expressão autêntica de quem são no mundo. E quem eles são? Essa é uma questão que, talvez, não devamos tentar responder.

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