Visibilidade intersexo: Globo, não mexa com a minha Buba

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Por Rafael Mesquita

Maria Luisa Mendonça em Renascer, 1993. — Foto: Acervo/Globo

O remake da novela “Renascer”, que vem sendo produzido pela TV Globo para o horário das 21 horas, tem gerado intensos debates devido à transformação de uma de suas personagens mais icônicas. Originalmente interpretada por Maria Luisa Mendonça em 1993, a personagem Buba, uma pessoa intersexo, desafiou conceitos de gênero e deu visibilidade à comunidade daqueles que não se enquadram nas definições médicas de sexo masculino ou feminino, quando essas discussões eram escassas. No entanto, na versão programada para ir ao ar em janeiro, Buba será retratada como uma mulher transexual, o que levanta a questão sobre se essa mudança representa um retrocesso na representatividade LGBTQIA+ na televisão.

Na minha perspectiva pessoal, influenciada pelo encanto e espanto que essa personagem despertou em mim na infância, é de que essa transformação é, de fato, um retrocesso. A Buba original desempenhou um papel fundamental ao dar visibilidade à pauta intersexo quando a sociedade mal discutia profundamente essas questões. De fato mexeu com as estruturas. Hoje, quando a compreensão e aceitação de pessoas intersexo ainda são desafios, eliminar essa narrativa parece ser um passo atrás.

A mudança

A decisão de modificar a característica da personagem foi tomada pelo autor Bruno Luperi, responsável pela adaptação da obra de Benedito Ruy Barbosa, com base na argumentação de que a sociedade atual oferece maior visibilidade às mulheres e homens trans. Para Luperi, essa mudança permitirá um debate mais profundo sobre questões de identidade de gênero. A escolha de Gabriela Medeiros, uma atriz transexual, para interpretar Buba, também é vista como uma forma de dar mais autenticidade à transformação.

A importância de Buba

A personagem Buba original desafiou as expectativas do seu parceiro romântico José Venâncio, então interpretado por Taumaturgo Ferreira. Ele inicialmente acreditava que ela era uma travesti. No entanto, José descobriu que Buba era uma pessoa intersexo, nascida com características sexuais que não se conformam com as noções binárias tradicionais de gênero. Na novela de 1993, usava-se o termo “hermafrodita”, que hoje é considerado desatualizado.

Em sua versão original, o conflito de Buba foi marcado por esteriótipos, mas ultrapassou o debate comum no jornalismo e na sociedade da época, que encaixava estes sujeitos em um contexto de deformidade patológica. Ainda que mergulhada uma trama heteronormativa, a sua figura perturbava as categorias fixas de gênero, podendo ser considerada uma personagem queer.

Em artigo acadêmico, o pesquisador Matheus Santos informa que Benedito Ruy Barbosa foi o único dramaturgo brasileiro a inserir o tema em uma de suas telenovela, que tem como marca narrativas sobre poder e opressão. “Com exceção de Renascer, os intersexos são impensáveis nas telenovelas brasileiras”, comenta Santos no texto.

A essência do conflito continua?

Mesmo com a transformação da personagem, a Globo e o atual roteirista principal defendem que a essência do conflito de Buba permanecerá a mesma, assim como a dificuldade de José Venâncio em compreender a mulher que ela é. Ela ainda enfrentará o preconceito da sociedade e os desafios de ser mãe, uma vez que não pode gerar filhos, exatamente como a Buba da primeira versão.

A estreia do remake em janeiro será um momento crucial para avaliar o impacto dessa decisão na representatividade LGBTQIA+ na televisão.

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