No dia do sexo, vamos tomar no cu?

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Icônica cena de sexo anal gay no distante 2014 na série “True Blood”. (Foto: reprodução)

O ânus como um órgão sexual que rompe com o essencialismo heterocentrado e suas identidades binárias

Hoje, 6 de setembro, é Dia do Sexo, a partir de uma ação de marketing da marca de preservativos Olla, em 2008, em alusão à posição sexual 69 (meia-nove).

E uma das formas de sexo que mais sofre com as imposições morais é o anal, sobretudo pelos impactos causados pela famigerada cis-heteronormatividade, que nega as relações afetivas e sexuais que fujam do binarismo pênis/vagina – macho/fêmea.

Javier Sáez e Sejo Carrascosa, autores dos estudos queer e espanhois, no livro “Pelo Cu: Políticas Anais”, destacam que a penetração anal ora é vista como algo negativo de se praticar, ora como como algo de desejo hegemônico. O fato é: o cu é um paradigma sociocultural. Parece muito democrático, todo mundo tem um, mas nem todo mundo pode fazer o que quer com o seu cu.

Em outras palavras, todo mundo quer “dar” ou “comer” o cu, mas há uma repressão em enfiar coisas nele que limita o prazer nessa região.

Cu e masculinidade

Javier e Sejo explicam que o cu é o grande lugar da injúria, do insulto, dentro desta sociedade construída em torno do masculino, que torna o sexo anal negativo para quem deixa ser penetrado, ou seja, que deixa de ser homem.

Usar o cu, portanto, aciona uma carga simbólica negativa, que atinge, em primeiro plano, pessoas LGBTQIA+, mas também relações entre pessoas heterossexuais, que deixam de aplicar essa possibilidade por puro preconceito. Não a toa, “vai tomar no cu!” é um xingamento, o que demonstra a estrutura de controle sobre nossos ânus.

Luiz Mott, doutor em Antropologia e figura histórica do movimento pela livre orientação sexual e identidade gênero do Brasil, afirma que “sentir prazer no cu não é sinônimo de homossexualidade. Muitas mulheres heterossexuais adoram dar o furico. Muito machão também sente prazer anal”. Sim, meus amores, analidade e homossexualidade são departamentos diferentes.

Cena de sexo anal protagonizada por Tom Holland em “The Crowded Room” (Foto: Reprodução)

Mas o constrangimento/preconceito não se restringe a corpos heterossexuais, gays ditos “ativos” reforçam o tabu em torno dos seus cus, assim como goys, os homens que têm relações com outros homens mas que não se dizem gays ou bissexuais. “A associação do homoerotismo com cópula anal deve ser interpretada tanto do lado do gay quanto do machão”, reforça Mott.

O doutor em Antropologia destaca ainda que o “dar” e “comer”, inclusive levando em consideração o peso destas palavras, define em muitos casos um papel de gênero para corpos gays, bissexuais, travestis e trans. O ativo é visto como um corpo que performa uma essencialidade do masculino, musculoso, viril e selvagem. E o passivo como alguém que deve performar o feminino, a submissão, que vai ter que escutar expressões como “abre a cuceta”, o que implica muitas vezes em comportamentos machistas na relação e até em violências sexuais. Consciente ou inconscientemente, para muitos, o lugar do desejo “determina quais os comportamentos próprios e diferenciados”, completa.

Local de prazer

Cedo do filme ‘Vermelho, Branco e Sangue Azul’, campeão de audiência lançado recentemente.

É incontestável que o ânus é sim uma zona erógena, um discurso já aprofundado socialmente. Há estímulos sensitivos que implicam em prazer na margem anal, no canal anal e no reto.

Segundo a coloproctologia, existe uma série de diversos benefícios decorrentes do sexo, sejam eles físicos, emocionais e sociais. Relaxar e curtir o momento é a principal recomendação, o que passa por enxergar isso como uma possibilidade. É romper como o medo.

“Numa relação recente, eu comecei a experimentar o sexo anal. Gostei tanto que passei até a preferir (…) Conseguimos uma ótima sintonia e até recomendo que minhas amigas e amigos descubram mais o prazer nessa região do corpo”, comenta Maria*, que descobriu uma nova forma de chegar ao orgasmo.

Libertar o cu e a nós mesmos

“O cu, o ânus, foi algo sexual em muitos momentos, mas a priori é uma sexualidade que não é de ‘homens’ nem de ‘mulheres’, não é masculina nem feminina, não é reprodutiva, não é genital. De fato, nem sequer necessita de um pênis; as pessoas se penetram com dildos, mãos, dedos, pés, objetos, línguas”, coloca trecho da publicação “Pelo Cu: Políticas Anais”.

Tá na hora de seres humanos, todes, héteros, homossexuais, goys, etc, darem alforria aos seus cus. Do famoso fio-terra ao exame de toque do urologista, libertem-se do preconceito e acionem seu prazer e sua saúde.

Como propõem Javier Sáez e Sejo Carrascosa, a revolução à cis-heteronormatividade passa pela quebra dessa política anal, que privatiza o ânus. Eles defendem: o cu pode ser subversivo.

*Nome fictício, a pedido da nossa fonte.

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