Presença LGBTI+ na Comunidade Tapeba – SEGUNDA PARTE

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TRANScender

Salvem as nossas Perpétuas!

Intolerância, Preconceito e Violência! Três palavras bem conhecidas no cotidiano das pessoas trans. Ser humano e ser respeitado como tal não é uma tarefa simples para quem não se identifica com o sexo biológico. Viver a identidade é uma luta diária das trans, principalmente para quem mora no Brasil, um dos países que mais mata trans. Segundo uma pesquisa realizada pela ONG Transgender Europe (pesquisa realizada em novembro de 2016), o Brasil responde por 42% dos 295 casos de assassinatos de pessoas trans registrados em 2015 em todo o mundo. Com 123 mortes, o país está bem à frente do segundo colocado, México, onde houve 52 registros. E permanece na primeira posição no ranking anual que conta as mortes dessa população.

O segundo estado da região Nordeste que mais mata a maioria dos LGBTi+ é o Ceará. De acordo com o White Wing Resistance Group (Grab), na última pesquisa de setembro de 2017, 43 pessoas foram assassinadas nos últimos três anos no Ceará. De acordo com o monitoramento da Rede Trans Brasil, apenas em 2017, 17 travestis e transexuais foram assassinados no Ceará. Destes, 14 foram por armas de fogo, com 60 tiros letais, uma média de 4,28 balas por vítima; e três por arma branca, 69 perfurações no total, média de 23 por pessoa morta. Na intenção de execução sumária, os golpes foram direcionados a 56% na cabeça e 17% nas costas.

Bandeira LGBTI+ Orgulho Trans.

No Ceará, existem 2,2 casos de LGBTcídio / mês, um aumento de 46% em relação a 2016, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB). Na pesquisa preliminar, travestis e transexuais têm o perfil mais vulnerável à violência letal, correspondendo a 68%. O estudo também aponta que 46% das vítimas tinham menos de 30 anos, abaixo da expectativa de vida do Ceará, atualmente 70,3 anos.

Créditos da foto: Jeffcoult.

Perpétua, 41, esteticista e cabeleireira, é uma exceção aos números mencionados, mas já experimentou essa realidade. Moradora da Comunidade Tapebas Capoeira, é indígena e transgênero, e muito bem resolvida com sua identidade de gênero hoje, mas nem sempre foi assim. Nos seus primeiros anos como mulher trans, sentiu o peso na pele porque não se identificava com seu sexo biológico, enfrentando várias situações de preconceito. Sem oportunidades de emprego, ficou nas ruas, o que a levou ao uso de drogas, um retrato bastante comum na comunidade trans, mas não deveria ser assim.

Perpétua, 41 anos, transexual.

“Não é porque é comum que deve ser naturalizado” – Perpétua, 41 anos.

Naturalizar preconceitos e manter uma cultura de ódio contra aqueles que não se encaixam no que é considerado “normal” é cultivar intolerância contra tudo o que não sabemos, e nunca estaremos cientes de tudo, especialmente quando se trata da natureza humana.

Depois de viver sua mudança, Perpétua tornou-se um ser colorido e cheio de alegria, assim que seus olhos perceberam isso. Perpétua, muito faladora e expressiva, gesticula com naturalidade, assim como é natural que ela se expresse de uma maneira que todos entendam, seja pela forma como fala, pelo vestido que veste ou pela maneira como ela olha para nós. No topo dos seus 1,76, ela usa um chapéu de palha trançado com uma aba longa, uma camisa floral e jeans de estampa curta. O perfume é marcante, assim como sua presença, mas nem tudo eram “flores” em sua vida. Sem apoio da família, ela foi às ruas e entrou em um universo sombrio. Ao passar pelo mundo das drogas e prostituição, a mesma não se orgulha dessa época e aconselha ninguém a seguir essas etapas, faz todo o possível e impossível para deixar claro como foi sua vida nesse período para servir de exemplo e alertar a outras pessoas. Pessoas que vivem a mesma realidade que ela viveu, o de “ser trans”.

Ela encontrou no mundo da beleza o caminho para sua redenção. Atualmente, Perpétua é empresária e proprietária de um salão de beleza em Caucaia. Fez curso de Estética e Cosmética na universidade Estácio, através de uma bolsa de estudos concedida por ter cursado todo o  ensino médio em escola pública. Apesar de toda essa transformação pessoal, Perpétua ainda sente o peso de ser trans em uma sociedade que não entende sua identidade. A carência afetiva é uma delas, Perpétua acha difícil encontrar uma pessoa que possa construir e compartilhar a sua vida, como ela diz: “alguém para dividir as despesas com ela”. Para Perpétua, só há um caminho a seguir: continuar seu trabalho, ser o que você é e lutar pela felicidade todos os dias.

“Quando eu era pequena, não era exatamente essa a minha condição. Não porque eu gostava de usar saltos ou vestidos da minha mãe, mas era algo dentro de mim. Não me sentia bem dentro do meu próprio corpo. O corpo era masculino, mas minha mente não. Nunca gostei de usar shorts e sempre fui muito feminina e delicada (risos)”, pontua.

A transexualidade refere-se à condição do indivíduo cuja identidade de gênero difere da designada no nascimento e que busca fazer a transição para o gênero oposto através de intervenção médica, que pode ser a redesignação sexual (cirurgia) ou apenas feminização / masculinização (administração hormonal), dependendo do sexo a ser transferido. No caso da Perpétua, a segunda opção foi o meio que ela usou para fornecer sua identidade e condição de gênero.

“Não posso me permitir uma cirurgia de mudança de sexo, mesmo sabendo que o SUS (Sistema Único de Saúde) faz isso. E eu sei que leva muito tempo e tem muitos requisitos para tornar esse processo eficaz. Mas o principal motivo para mim, é porque tenho medo de fazer a cirurgia. Por isso, escolhi usar o hormônio feminino.”, relata.

De acordo com o Portal Brasil, com informações do Ministério da Saúde e da Agência Brasil, as cirurgias de mudança de sexo são realizadas pelo SUS desde 2008, para pacientes atendam aos requisitos como: idade adulta, acompanhamento psicológico por pelo menos dois anos, relatório psicológico / psiquiátrico favorável e diagnóstico de transexualidade. Até 2014, 6.724 procedimentos ambulatoriais e 243 procedimentos cirúrgicos foram realizados em quatro serviços qualificados no processo de transexualização no SUS.

“Acho que, independente do meio escolhido, o mais importante é se sentir bem. Se eu me sinto bem tomando hormônio feminino, se satisfaz a minha condição e como me vejo, continuarei neste caminho. Não posso dizer que nunca vou fazer cirurgia porque isso também pode mudar, mas agora estou bem do jeito que estou ”, diz Perpétua, enquanto sorri e despede-se dizendo:“ Você não precisa editar nada, viu? pode expor (risos).”

Perpétua.

Autor: Jefferson Cândido (@jeffcoult)

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