O corpo gordo não pode ser um “padrão”?

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Por Igor Thawen

Inicialmente, é importante esclarecer que não estamos promovendo uma narrativa de apoio à obesidade, mas sim questionando se o conceito de “corpo padrão” deveria determinar a realidade das formas que habitamos.

Um incidente recente envolvendo o ator Marcus Majella, que acusou seu ex-namorado, Guilherme Porto, de ter mantido um relacionamento por interesse, desencadeou um debate que vai além. Nas redes sociais, esse caso se tornou a história de um homem gay, afeminado, que já foi gordo e não branco, que, supostamente, manteve o interesse de um “homem padrão” devido ao seu status profissional e financeiro. Segundo Majella, seu ex-namorado não contribuía com as despesas do condomínio onde moravam juntos e tinha suas mensalidades de faculdade pagas pelo ator. Eles se conheceram há quatro anos, período em que estiveram juntos. O “consenso” das mexeriqueiras nas redes sociais é que, para homens gays que não se encaixam nos padrões estabelecidos, a única maneira de atrair um parceiro “padrão” é sendo seu provedor financeiro.

Este debate acendeu uma série de questões relevantes dentro das inúmeras pautas da comunidade LGBTQIA+. Entre essas questões está o preconceito e os estigmas que, teoricamente, não deveriam existir dentro de um agrupamento que prega a diversidade e a inclusão. Contudo, a repetição constante da exclusão de diversas identidades dentro da população LGBTQIA+ parece não gerar reflexões significativas entre os indivíduos que, por natureza, possuem expressões diversas.

Em muitos casos, essa galera, ao tentar destacar algumas personalidades, inadvertidamente acaba excluindo outras, reforçando um padrão que tem suas raízes na cisheteronormatividade. Essa abordagem cria mais uma barreira para os corpos gays, lésbicos e trans, que já enfrentam preconceitos e desafios significativos.

Ao abordarmos a questão dos privilégios, não podemos nos limitar apenas à questão de gênero ou orientação sexual, mas também devemos considerar as diferentes formas de corpos e suas variações.

Por que é importante discutir esse tema?

De acordo com a Associação Nacional de Transtornos Alimentares dos EUA (National Eating Disorder Association), homossexuais têm sete vezes mais chances de desenvolver compulsão alimentar e doze vezes mais chances de ter bulimia em comparação com homens heterossexuais. A mesma pesquisa revelou um dado alarmante: 54% dos jovens LGBTQIA+ entrevistados relataram ter enfrentado algum transtorno alimentar.

O chamado “corpo gay padrão”, frequentemente idealizado pela comunidade, assemelha-se ao corpo masculino presente na narrativa heterossexual, caracterizado por músculos e força, atributos que simbolizam a suposta virilidade. Essa representação gera diversas problemáticas, incluindo a objetificação dos corpos. O mesmo ocorre em relação às mulheres lésbicas femininas e às mulheres trans, quando se trata da chamada “passabilidade”, isto é, a capacidade de uma pessoa transgênero ser percebida ou reconhecida como o gênero com o qual se identifica, em vez do gênero atribuído ao nascimento.

Esse comportamento alimenta uma obsessão pela imagem corporal, com o objetivo de obter aprovação e encaixar-se em um contexto social que valoriza determinados padrões estéticos. Por exemplo, uma pesquisa realizada em 2017 pela revista Atitude, que aborda questões relacionadas à comunidade gay, revelou que 84% dos entrevistados se sentiam “sob pressão” para alcançar um corpo considerado “em forma”. Apenas 1% dos participantes se considerava confortável em sua própria pele.

Fica demonstrado que o padrão estabelecido pela heteronormatividade, mais uma vez, exclui os corpos da comunidade LGBTQIA+. Em teoria, muitas vezes aprendemos a rejeitar aqueles que nos rejeitam. Mathew Todd, autor do livro “Straight Jacket: How to be gay and Happy” (“Camisa de Força: como ser Gay e Feliz”), argumenta que a homossexualidade frequentemente está associada a sentimentos de vergonha originados da falta de aceitação na sociedade. Esse sentimento pode levar à falta de autoaceitação, resultando em uma obsessão prejudicial pela aparência e na incessante busca pelo padrão de beleza. Nesse contexto, também se destaca o papel prejudicial do machismo, que idealiza um corpo “supermasculino”.

Existe uma solução mágica para esse problema?

Certamente, essa é uma longa caminhada. No entanto, uma atitude positiva em relação à diversidade de corpos dentro da comunidade é fundamental para fortalecer a existência de uma coletividade que se aceita e se apoia. Isso não significa excluir os corpos magros ou rejeitar aqueles que buscam o “corpo de homem”, mas sim incluir os corpos gordos, não binários e todos aqueles que não se encaixam nos padrões convencionais.

Da mesma forma como apoiamos marcas que promovem a diversidade de gênero e orientação sexual, devemos também apoiar aquelas que valorizam a diversidade de corpos. A inclusão é a chave, seja para abrir um armário ou trancar a porta do estigma.

Cada corpo merece admiração e aceitação mútua. É hora de deixar de perseguir padrões!

Edição: Rafael Mesquita

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