Com o Xou da Xuxa, a minha criança viada viu o mundo mais bonito

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Foto: Divulgação / TV Globo

Por Rafael Mesquita

Como uma criança dos anos 1980-1990, periférica e de pais da classe trabalhadora, eu também fui educado pela televisão e a minha babá eletrônica foi Xuxa Meneghel.

Nasci em 1986, quando estreava na TV Globo, em 30 de junho, há exatos 37 anos, o icônico Xou da Xuxa. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que o meu imaginário infantil, sem acesso econômico a outras formas de entretenimento, foi forjado neste repositório particular da cultura pop brasileira.

Inclusive, a minha lembrança de infância mais antiga é exatamente de assistir, na casa da minha tia Mazé, a uma edição especial do Xou da Xuxa. Tempos depois, recordei que era a edição de mil programas.

Os anos passaram e as mensagens populares de Xuxa, a estética, os musicais e outras marcas simbólicas me acompanharam. Muitos podem não entender, mas o “mundo da Xuxa” me fortalecia. Isso porque, já na primeira infância, aquele menino, que era feliz na frente da TV, sofria as dores de um lar ruidoso, cheio de crises, e um mundo (da escola, da rua e da família), que não entendia aquele ser humano particular e, também por força de uma cultura binária e agressiva, espalhava infâmia e ódio contra aquela criança viada.

Foto: Divulgação / TV Globo

Digo tudo isso para falar, em meio a uma série de críticas (devidas ou não e as vezes anacrônicas, do ponto de vista do desenvolvimento histórico), do retorno do Xou da Xuxa, que foi exibido entre março e junho deste ano, de forma especial, pelo canal Viva. O anúncio do retorno do programa, nos 60 anos de Xuxa, me fez acessar as memórias (boas e ruins) daquilo que vivi.

Anos depois, conclui, com o ensinamentos de Paul Preciado e outres pesquisadores dos Estudos de Gênero e Sexualidade, que estas normas sexuais e de gênero haviam sido inculcadas dolorosamente em mim e que Xuxa pode não saber, mas o seu universo permitia que a minha criança, cuja subjetividade não se reduzia a identidade que me era imposta, podia existir.

Naquela período, foi bom sonhar, pra ver o mundo mais bonito, Xuxa Meneghel 🌈❌

 

Texto originalmente publicado no perfil do jornalista Rafael Mesquita em fevereiro de 2023.

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