Ari Areia: Haverá festa com o que restar

Em um diálogo com a literatura, o ator e jornalista Ari Areia nos convida a imaginar um futuro em meio ao declínio: “é preciso disputar o mundo que emerge desse que se desfaz”. Confira a deleitosa estreia do colunista no Mídia Queer!

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Por Ari Areia, colunista Mídia Queer
Foi como se o chão (que está se desfazendo sob os nossos pés desde sempre) tivesse esfarelado de vez e a gente desabado em queda livre. Essa metáfora não é minha, é do Ailton Krenak no ‘Ideias Para Adiar o Fim do Mundo’  (Cia das Letras, 2019), ele propõe essa imagem numa reflexão sobre o desespero que o resultado da última eleição presidencial causou nos corações brasileiros razoáveis. A vitória do horror nos fez perder o chão e isso foi concreto.
Uma vez eu cometi o equívoco de me referir ao Krenak como ‘filósofo indígena’, a Helena, minha amiga, fez questão de corrigir, porque filósofo é branco demais, europeu demais, pra conseguir definir o que o Krenak abarca no que escreve, “o Krenak é um xamã”, ela disse. Então vamos chamar assim, é um nome que transborda.
Quando o povo Krenak, em Minas Gerais, viu matarem o Rio Doce, eles viram matarem alguém, um ancestral (não um deus), mataram uma pessoa mesmo, mataram o Rio. Era o referencial de gerações inteiras, de todas as gerações anteriores. O chão se desfez violentamente com a morte daquele Rio e todo um povo desabou. O Ailton Krenak conta isso no seu livro. E ele conta isso pra fazer a gente entender que, para os povos originários, o chão se desfaz há mais de 500 anos. São mais de 500 anos em queda livre.
O nome do livro é ‘Ideias Para Adiar O Fim do Mundo’ e o conselho prático que o xamã nos dá (alerta de spoiler) é ‘sempre poder contar uma nova história’. Ele diz que enquanto a gente puder contar uma outra história, vamos conseguir adiar o fim do mundo. E usa uma outra figura tão linda: já que cair é inevitável, vamos cair, mas abrindo paraquedas coloridos. Escolher como cair é tomar nas mãos, na medida do possível, o rumo das coisas. Contar uma nova história, imaginar.
Capa do livro “Ideias para adiar o fim do mundo” e o autor Ailton Krenak. Foto: Divulgação
Esses dias eu me peguei pensando sobre isso, sobre quem pode parar pra imaginar. Não imaginar por imaginar, eu digo, quem tem condição mesmo de no meio desse fim do mundo, dessa queda livre, conseguir estrutura para propor uma nova história? A fome, o subemprego, a iminência de morte (pelo machismo, pelo racismo e pela lgbtfobia)… não nos deixam sobrar tempo pra brigar pelos rumos desse futuro em disputa. Faz parte do jogo tirar a gente do jogo. Mas é preciso disputar o mundo que emerge desse que se desfaz.
Outro livro que mexeu muito comigo nesse semestre que encerra foi “Haverá Festa Com O Que Restar” (Urutau, 2018), são poesias do Francisco Mallmann. Isso é muito a gente né? Eu queria montar um espetáculo com esse nome. Um espetáculo mesmo, comigo dançando, cantando, tomando uma coisa quente, suando na frente de todo mundo, debaixo daquela luz vermelho-azulzinha, tipo o ‘Go Go Bruce’.
‘Haverá Festa com o Que Restar’ é muito bom! E você percebe? É um convite à imaginar um futuro, depois disso agora que desaba. Um convite a chegar vivas do outro lado, depois desse tumulto no mar da História. Haverá festa com o que restar, é tipo combinar de não morrer.
P.S.: Esse é um abraço à todas aquelas que fizeram festa com o que restou antes de nós.

 

Ari Areia: Ator, jornalista, militante dos direitos humanos, ativista LGBTI+ e socialista.

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