A “destransição” não deve ser palco para a descredibilização da luta trans

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Por Igor Thawen

Recentemente, tomou grande proporção o caso do influenciador digital Carlos Emanuel, conhecido popularmente como Catty Lares – nome que ainda usa nas redes sociais e adotado na época em que se identificava como mulher trans. No dia 19 de abril, via Instagram, ele postou dois vídeos afirmando que sentiu a presença de Deus e que deveria tornar isso público.

Somando, os dois materiais chegam a quase 2 milhões de likes, 20 milhões de visualizações e 50 mil comentários. As opiniões sobre o vídeo variam, perpassando por críticas, questionamentos e elogios. A cantora e ativista trans Linn da Quebrada foi uma das pessoas a comentar: “Inventamos Deus porque precisamos. Divindade boa é aquela que cultuamos e nos faz crescer e nos desenvolver, absorvendo e criando sentidos que nos sustentem. Te amo”.

A questão é que esta justificativa de “encontro com Deus” cria uma problemática. Induz a crença de que ser uma mulher ou homem trans é uma escolha, quando na verdade não é. Infelizmente, Emanuel também coloca a religião como um pilar de “regeneração”, levando à conclusão equivocada de que a identificação com um gênero diferente do atribuído biologicamente seria uma anormalidade, ou até mesmo insinuando que a fé simplesmente pode reverter os desejos naturais das pessoas. Além disso, deslegitima a luta do movimento social das travestis e transexuais.

O fato é que não é a primeira vez que isso acontece. Lunna Alves, também influencer, ficou conhecida nas redes através de vídeos de humor publicados no YouTube, Instagram e TikTok. Em julho de 2020, se afirmou como “ex-travesti”. A partir da data, passou a usar o nome Lucas Alves e expor a “destransição” em suas redes, fazendo lives de pregação, testemunho e leitura do evangelho.

A “destransição” não demorou muito, por isso, neste artigo, me refiro a ela como Lunna, pois é o nome que, recentemente, voltou a usar em suas redes. Acrescenta-se o fato de que, em sua bio do Instagram, afirma: “O amor me resgatou”, utilizando a bandeira LGBTQIA+ ao lado da frase.

Não há nada de errado em fazer um momento de reflexão sobre a sua identidade de gênero, orientação sexual ou até chegar a fazer a “destransição”, mas é preciso entender que todo reforço de um estigma por meio de um exemplo negativo atrelado a religião é prejudicial para uma comunidade que há anos luta por acessos, dignidade e segurança. Resultado do preconceito, peça de marketing, conflito pessoal ou tudo junto, a postura destes e destas influencers tem fortalecido, infelizmente, as correntes de ódio contra a população lésbica, gay, bissexual, transgênero, queer, intersexo e assexual. Talvez seja a marca de nossa época o sofrimento “em praça pública”, com tudo transmitido e compartilhado nas redes digitais do século XXI.

Sobre isso, consciente da problemática, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) afirma que: “Pessoas que ‘destransicionam’ precisam de acolhimento e apoio. Desejamos que sejam felizes”.

Os motivos? São diversos!

Em uma pesquisa feita em 2021, pela National Center for Trangender Equality, realizada com 28 mil pessoas transgêneras ou de gênero diverso nos Estados Unidos, mostrou que 8% delas relatam alguma forma de “destransição” ou arrependimento em relação à transição de gênero. Dessa porcentagem, 62% “destransicionaram” apenas temporariamente, vivendo atualmente em um gênero diferente daquele que foi designado no nascimento.

Os motivos são: pressão de algum familiar (36%); discriminação e constrangimento (31%); dificuldade em encontrar emprego (29%) e pressão do empregado (17%). Cerca de 0,4% do total “destransicionaram” porque perceberam por si mesmas que a transição não era adequada para elas.

Por fim, vemos que boa parte dos casos acontecem por pressões externas, não invalidando quem o fez e hoje vive bem, mas devemos entender que as exceções devem ser tratadas como tal e não como regra. “A maioria das pessoas que ‘destransicionam’ o fazem temporariamente e em função da transfobia”, afirma a ANTRA em postagem.

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