Dediane Souza: Não somos uma imitação

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Foto: Getty Images/iStockphoto
Dediane Souza, colunista Mídia Queer

Hoje irei conversar com vocês sobre representatividade.

Representatividade é algo muito comum aos movimentos sociais que discutem visibilidade, combate ao preconceito e à discriminação, a exemplo do movimento feminista, LGBTI+ e a luta anti-racismo.

Aqui vou falar sobre a campanha da Natura para o dia dos pais, que tem um homem trans que também é pai para representar essa data. Não é uma novidade para ninguém aqui que essa campanha foi motivo de muita polêmica nessa última semana, dessa forma, importante perguntar quantas outras campanhas a Natura já realizou dos dias dos pais com homens CIS?

Por que incomoda à cisgeneridade o fato de um homem trans estar em uma campanha dos dias dos pais?

A resposta é bem óbvia. A Transfobia!

O que temos para o debate de representação?

Necessitamos conversar sobre o que nos representa e o que não nos representa: mulheres negras, nordestinas, trans, travestis e mulheres com deficiência nunca foram representadas em comerciais, novelas, na política e em inúmeros espaços sociais e nunca foram interpeladas pelo boicote e muitos menos conseguiram uma comoção do apelo de líderes religiosos reivindicando essa representação.

O que está colocado para a situação que envolve Tammy é a transfobia. Pode uma pessoa trans representar todos os pais em uma campanha dos dias dos pais? Como esse sujeito que “Nem Homen é!” representar os pais brancos e CIS da sociedade hipócrita brasileira? A resposta está publicada nas redes sociais, na campanha de boicote à marca que contratou uma pessoa trans para representar os pais em data totalmente comercial.

Assim, deve-se considerar a importância do reconhecimento das identidades trans e travestis: nós não somos uma imitação das pessoas CIS, pois não necessitamos de permissão de nenhuma pessoa CIS para nos afirmarmos enquanto travestis, mulheres e ou homens. Nossa identidade está atrelada diretamente à nossa afirmação, sem ela não existimos.

Importante destacar que não necessitamos de uma autorização social para nos afirmar enquanto sujeito. O que necessitamos, neste momento, é de respeito! Esses atos de discriminação “travestidos” de opinião colocam as pessoas trans no lugar de inferioridade, no lugar de subalternidade e de elevação da vulnerabilidade.

Aqui não quero fazer a defesa nem da marca e nem do sujeito trans envolvido. Quero apenas chamar as pessoas para refletir; questionar a identidade de masculinidade e de paternidade do Thammy é negar a existência das pessoas trans e o boicote à transexualidade é o boicote à minha existência e a de milhares de outras pessoas trans no Brasil.

Necessitamos conversar sobre as representatividades sociais que, historicamente, foram negadas a uma boa parte da sociedade Brasileira.

As pessoas trans no Brasil só passaram a serem reconhecidas oficialmente como mulheres, homens e travestis em 2018, com uma decisão da Suprema Corte Brasileira que passou a reconhecer as identidades trans sem a necessidade de uma junta medica ou um parecer de juiz para dizer quem somos.

Existe uma necessidade urgente que é de boicote ao preconceito, à discriminação que afasta as pessoas trans e travestis do lugar de humanidade.

Dediane Souza: Jornalista, travesti, feminista, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará, ativista das pautas de direitos humanos e filiada à Rede Trans Brasil. Atualmente é Coordenadora da Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual da Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social – SDHDS de Fortaleza.

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