
Por Mães pela Diversidade
A ideia de uma criança vivendo uma situação de violência sexual causa sempre uma grande comoção. Não há crime de outra natureza que suscite igual revolta. Em geral, tendemos a nos envolver mais com histórias em que mocinhos e vilões são muito bem identificáveis. No dia a dia, entretanto, somos levados a acreditar que isso acontecerá sempre muito longe, com pessoas desatentas e irresponsáveis. Um grande engano e com sérias consequências.
Recentemente, pipocaram nas redes sociais séries de denúncias feitas por meninas (crianças e adolescentes). Num primeiro momento, expondo colegas (também crianças e adolescentes) que as chantageavam e ameaçavam em troca de nudes e relações sexuais; por fim, denunciando professores com as mesmas práticas. Abusos e estupros que acontecem diariamente, bem debaixo dos nossos olhos. A resposta das escolas, envolvidas nominalmente nas exposições, é a de que “providências foram e serão tomadas”. E é aqui que chegamos à questão que queremos abordar.
Responsabilizar os agentes desses abusos é algo importantíssimo.
Considerar que somente isso resolve o problema demonstra o tamanho de nossa covardia. O adulto tem o papel de anfitrião do mundo para a criança. É o responsável por mediar as relações e contribuir com a construção de significados. Acontece que quando o tema é sexualidade, cultivamos um pavor e constrangimento imensos, e nos omitimos. Nosso silêncio desampara crianças/jovens e precisamos admitir: coloca-os em sofrimento e risco.
Consideramos as denúncias feitas um grande grito de socorro a todos nós. Elas gritam: “Parem de fingir que nossa sexualidade não existe. Ajudem-nos a nos conhecer, a nos construir”.
Desamparamos a infância e a juventude quando negamos a eles instrumentos de identificação e defesa de possíveis abusos. Desamparamos, sobretudo, as crianças e jovens LGBTQIA+, invisíveis às instituições escolares. Indesejáveis. Tão mais vulneráveis. Falhamos absurdamente pois ensinamos que só há um modo de lidar com a própria sexualidade: com medo.
Precisamos nos unir, urgentemente, em torno de um projeto que construa uma educação sexual honesta para com a nossa realidade. Uma educação que liberte e proteja na mesma medida. Com o ímpeto de quem aponta e condena o pior dos criminosos sexuais, precisamos combater o silêncio e apatia que nos conduziram até aqui. Inspiradas na coragem dessas meninas, que se libertaram do medo para denunciar o que viviam, precisamos construir uma resposta. COM AMOR. SEM MEDO.
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