
Pelo Twitter, na última quinta-feira (01/10), Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares, anunciou que retirou o nome de Madame Satã da lista de personalidades negras da entidade vinculada à Secretária de Cultura do Governo Bolsonaro.
Camargo cita os 27 anos aos quais Satã foi condenada por homicídios, agressões, furtos e desacatos. Em outra publicação, ataca Lázaro Ramos, que interpretou a transformista nos cinemas.
“A Palmares não mais o homenageia”, escreveu, chamando Madame Satã de “criminoso”, na sua opinião glamourizada no cinema por Lázaro.
Mas quem de fato foi Madame Satã?

João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, foi figura emblemática da vida noturna e marginal do Rio de Janeiro. Residia e resistia na boemia da Lapa, sendo, na primeira metade do século XX, talvez seu personagem central.
Nos seus 76 anos de vida, a “irônica, extrovertida e desconfiada” Satã, como colocava a biografia presente nos arquivos da Palmares, pregava a cartilha do malandro e se tornou famosa na Lapa devido às brigas em que se metia, muitas delas travadas com policiais, a golpes de capoeira.
Em entrevista concedida ao jornal O Pasquim, no ano de 1971, justificou sua predileção por brigas com agentes da polícia: não tolerava o tratamento que davam às pessoas, principalmente quando eram consideradas suspeitas, tornando-se ainda mais violentos, como ainda hoje costumam ser, quando se tratavam de pobres, negras e homossexuais, três identidades que Madame Satã acumulava.
Sem correr o riscos de exagero, podemos considerar que Satã foi presa política, assim como outros tantos da sua época, a exemplo de Luís Carlos Prestes, com quem conviveu e a quem considerava um grande companheiro.
A virilidade que constitui a persona do malandro de Madame Satã, sua homossexualidade e as performances artísticas nos carnavais desafiavam um sistema que teima, até hoje, em negar os corpos negros e dissidentes da cis-hetornormatividade.
Apagamento negro no Brasil do Bolsonarismo
Na tentativa bolsonarista de reescrever a experiência negra no País, Sérgio Camargo, o chefe racista da fundação, nega a importância dessas figuras históricas, em especial aqueles que se projetaram como símbolos da esquerda.
É o caso de Benedita da Silva (PT), candidata à Prefeitura do Rio, que, um dia antes de Madame Satã, também teve seu nome eliminado da lista. O motivo alegado é a acusação de suposta improbidade administrativa pela qual a deputada é investigada e não foi condenada. Em vídeo, Benedita afirmou que o ato do “Capitão do Mato” foi “ilegal e abuso de poder”, e que vem sofrendo ataques racistas em suas redes sociais.