Émerson Maranhão: Atitudes libertárias não têm idade

O ator Tuca Andrada, 55, e a popstar Madonna, 61, foram alvos de críticas nas redes sociais por se exporem demais para a “idade que têm”. Será que é só a idade deles que incomoda tanto?

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Fotos: Reprodução da Internet
Por Émerson Maranhão, colunista Mídia Queer

A intolerância é senhora destes tempos em que vivemos. Tristes tempos. Desde que a cultura do ódio tomou de assalto o País, discordar não é suficiente. É preciso escarnecer, desdenhar, menosprezar. Se antes Narciso achava feio o que não era espelho, como cantou o mestre Caetano, hoje ele estilhaça furiosamente a superfície em que não se vê refletido. E assim vamos vivendo como se estivéssemos eternamente em batalha, ávidos pelo massacre do próximo inimigo – este sempre imaginário, uma vez que fruto de nossas próprias frustrações.

Pensei nisso quando, há dois dias, acompanhei uma polêmica no Instagram do ator Tuca Andrada. Quem segue as redes sociais do pernambucano, intérprete de Belizário na novela Amor de Mãe (TV Globo), sabe que ele é crítico ferrenho do governo Bolsonaro e seus asseclas; promove frequentemente filmes, novelas e espetáculos de seus pares; defende bandeiras de minorias étnicas, religiosas e sexuais; assim como também é pródigo em postar fotos dele mesmo de sunga, na praia ou em casa, ostentando um corpão definido e bronzeado.

A exibição de sua excelente forma física, aos 55 anos de idade, sempre celebrada pelos seguidores, encontrou voz dissonante na última terça-feira, 7. Um homem, cuja foto indica ser mais novo que o ator, escreveu o seguinte comentário: “Nesta foto , mostra que vc está bem envelhecido,que o tempo passa bem de pressa”. (os erros ortográficos e gramaticais reproduzem o original).

Tuca respondeu de pronto, e à altura, o internauta “sincerão” e o post já contabiliza mais de 18 mil curtidas e de 600 comentários, a maioria absoluta em apoio ao ator, o que não surpreende. Surpresa mesmo, ainda causa, que um homem libertário e exuberante como Tuca Andrada incomode justamente por sê-lo aos 55 anos de idade, por ter mais de meio século de vida, ao que parece muito bem vivida.

Não é novidade que muitos daqueles que ainda não se aproximaram do Retorno de Saturno olhem com certo desdém os de gerações anteriores. Aliás, na cena LGBT (XYZ), de uma maneira geral, chega a ser quase um padrão. Mais de uma vez presenciei comentários desagradáveis, sendo eufemístico, sobre a presença de homens mais velhos nas baladas frequentadas pelas turmas daqueles que têm certeza que, qual Dorians Grays redivivos, continuarão a se jogar nas pistas eternamente jovens, enquanto seus retratos envelhecem escondidos.

E aqui, poderia me estender longamente sobre o preconceito interno dentro de grupos LGBTs, tanto etários quanto sociais e raciais. Minorias oprimidas inacreditavelmente fazendo da opressão a outras minorias uma práxis. Mas não é esse o tema dessa coluna. E sim, a insistência de uma padronização etária normativa, que satisfaça apenas aos desejos de quem a produz.

Um dos maiores ícones da liberdade sexual (e também ídolo gay) de todos os tempos, a popstar Madonna sofreu assédio similar nesta semana. Ao postar em seu Instagram (sempre ele!) uma selfie em que aparece de topless, a cantora recebeu uma chuva de impropérios nos comentários.

Foto: Reprodução do Instagram

Por óbvio é sabido que Madonna faz isso há décadas, razão mais que suficiente para não surpreender seus seguidores e fãs. Então, qual o motivo da reação negativa? Simples, agora ela tem 61 anos de idade. “Você devia agir como uma pessoa de sua idade!”, “Você não tem mais idade para isso!” e “Vá colocar uma roupa!” foram alguns dos comentários publicados.

Mais uma vez a postura libertária é alvo de ataques públicos porque vinda de pessoas que “não tem mais idade” para esse tipo de coisa.

A sincronicidade dos dois episódios leva a uma outra conclusão, além da tentativa de padronização de comportamento etário. E aqui voltamos ao conceito de intolerância que abre este texto. Tantos os incomodados com os seios de Madonna, quanto o rapaz que apontou a “rápida passagem do tempo” para Tuca, poderiam muito bem ter guardado para si suas impressões deselegantes. E se não o fizeram é porque urgia desqualificar os causadores de seus incômodos.

Reação típica daqueles que não conseguem tolerar no outro o que, na verdade, lhes falta. A única saída para estes é aviltar a condição que seria seu verdadeiro objeto de desejo.

Em tempo, esta foi a resposta (certeira e ferina) de Tuca Andrada para o tal rapaz: “(o tempo) passa MT depressa, mas mesmo assim, envelhecido e caído, quem eu pego, nem em punheta tu consegue. Bj linda”.

Bufo!

CURTAS LGBT 1

Começou nesta terça-feira, 7, e segue até o próximo domingo, 12, o Festcurtas Fundaj 2020, que reúne 44 curtas-metragens, de 14 estados brasileiros, na disputa pelos prêmios do Júri Oficial e do Júri Popular. Durante este período todos os filmes estarão disponíveis para serem assistidos gratuitamente no site oficial do festival.

CURTAS LGBT 2

Entre os selecionados, vários filmes com temática LGBT (XYZ), já premiados em outros festivais. Destaque para o documentário Soccer Boys (RJ), de Carlos Guilherme Vogel; e as ficções Volta Seca (PE/SP), de Roberto Veiga; Marie (PE), de Léo Tabosa; Em Reforma (RN), de Diana Coelho; e Batom Vermelho Sangue (PB), de R.B. Lima. Sem falar no documentário cearense Aqueles Dois, dirigido pelo titular desta coluna. Para assistir aos filmes: https://festcurtasfundaj.com.br/

FESTIVAL DA ATRANSCE

A Associação Transmasculina do Ceará (Atrans-CE) realiza a primeira edição do Festival Transmasculinezando – No Ceará tem disso sim!, de 13 a 18 de julho (de segunda à sábado, da próxima semana). Todas as atividades, que abrangerão diversas temáticas sob a perspectiva de homens trans e transmasculines, serão realizadas de forma online e transmitidas pelo Instagram da @atransce. Cada live terá uma hora de duração. Para conferir a programação completa e os respectives convidades: https://emersonmaranhao.com.br/?p=940

ÉMERSON MARANHÃO: Jornalista, roteirista e diretor de cinema. Durante 15 anos, redigiu e editou a Cena G, coluna voltada para o público LGBTQ+ no Jornal O Povo. Estudou Narrativas Transmidiáticas na Universidade de Tallinn (Estônia). Em reconhecimento à sua militância, o jornalista foi homenageado no 6º For Rainbow em 2012.

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